O Pecado Original

Recém nascida

Deus foi-me imposto desde que nasci.

Não tive oportunidade de escolher. No início dos anos 60 do século passado, apenas com alguns dias de idade fui batizada; isto porque, um bicho muito mau (brincadeirinha do diabo, certamente) resolveu fazer, do meu pequenino corpo a sua residência. Aconteceu que, os meus órgãos, músculos e ossos, não gostando da intrusão, desataram a reagir, provocando-me uma febre anormal. Eu era tão pequenina, indefesa e filha de pais assalariados rurais – portanto pobres, logo, sem recursos para voarem comigo para Londres –, que todos pensaram, que eu não resistiria ao dito febrão. Entretanto, perante este cenário dramático, a minha família, aflita, perguntava-se o que fazer. Algum membro, certamente muito descrente, no meu instinto de sobrevivência e nos esforços do médico, lançou para o ar, a ideia de batizar a menina. E pronto: a ideia foi aprovada por maioria quase absoluta e lá fui eu a caminho da igreja. Quando lá cheguei, tiraram-me, a toda a pressa, o pecado original, não fosse eu, tão linda e perfeitinha, perder o céu. Ainda hoje me pergunto, se o pecado original não será um vírus…

Adão e Eva

Ora, o tal pecado, congénito e hereditário – que não recebi de meus pais, mas de Adão e Eva – foi a razão do meu precoce envolvimento, com a água benta e essas coisas sagradas. Sempre considerei este pecado, um dos mistérios mais rebuscados e artificiais da bíblia. Ele só apareceu na infância do cristianismo, tendo sido descoberto, imaginado, aperfeiçoado e refinado por Agostinho de Hipona (354 – 430). Na altura, apenas Pelágio da Bretanha se opôs a tamanha patetice, o que lhe valeu, pelo menos três condenações como herege. Duas pelo bispo de Roma em 417 e 418 e outra pelo Concílio de Éfeso em 431. Esta última, possivelmente, foi ditada depois da sua morte.

Um outro estudioso, talvez esquizofrénico, William Marrion Branham (1909 – 1965), certo dia foi agraciado com a presença divina, que lhe revelou a verdadeira história do pecado original. Para este estratega da paranóia cristã, a história reveste-se da mais requintada luxúria. O pecado original tem a ver com o facto de Eva (isto isenta o Adão da culpa) ter copulado com a serpente. Nessa ligação pecaminosa, a serpente introduziu a sua semente dentro de Eva, o que deu origem a Caim e à sua posteridade. Deste modo, todas as gerações humanas ficaram contaminadas com o mal. Eu bem desconfiava que Caim, tão energético, não podia ser filho do papa-açorda do Adão…

Antes que me esqueça… devo dizer que, os judeus, as diversas fações islâmicas e a grande maioria dos católicos ortodoxos – ou sejam, as grandes religiões monoteístas e abraâmicas -, não consideram a existência do pecado original. Alegam que, na narrativa primitiva (livro bíblico, Génesis), nada faz supor a existência do dito pecado. Perante esta informação valiosa, só me ocorre admirar e ficar pasma com a enorme criatividade dos cristãos.

Ora bem, então vamos lá ao que interessa: o pecado original é uma doutrina cristã, inventada por um publicitário espertalhão do séc. IV ou V, revista e aperfeiçoada por Santo Agostinho. Ela pretende explicar a origem da imperfeição humana, do sofrimento e da existência do mal.

Para além dos atrativos filosóficos e teológicos desta doutrina, ela serve, fundamentalmente, para reforçar a prática de manter o povo acorrentado à igreja, desde os primeiros meses de vida. Ora, é de pequenino que se torce o pepino e as crianças são um alvo fácil. Não têm escolha. Até porque uma criança torna-se adolescente, mais tarde adulto, portanto com plena capacidade para escolher a sua filosofia de vida, as suas crenças ou ausência delas. Isso não interessava aos cristãos do séc. V, tal como não interessa aos cristãos do séc. XXI. É imperativo que uma criança chegue à adolescência, já com o caminho traçado e a cabeça feita. Ou seja, sem capacidade para questionar, fechada num mundo de valores questionáveis e conhecimentos distorcidos, imutáveis há milhares de anos. Uma criança, assim educada, será sempre uma boa ovelha.

Eu não tive escolha. Mas os meus filhos têm.

Anúncios

Sobre Luísa L.

Portuguesa, alentejana, apaixonada pelas artes e letras em todas as suas manifestações.
Esta entrada foi publicada em Eu não Escolhi Deus com as etiquetas , , , , , . ligação permanente.

14 respostas a O Pecado Original

  1. Laudelino diz:

    Em total concordância! Sempre o poder usou da religião para dominar…
    e nosso CONSTANTINO, filho de Júlia Helena, fez a migração de deuses..
    E o imperio romano ainda suspira, em cada templo, denominação…
    E taí uma comoditie de grande valor a promover recompensas pos morte a sua clientela, enquando deleitam na condução da massa…

    • Luísa L. diz:

      Penso que sucesso das grandes religiões, está na subtileza, com que os seus líderes manipulam o pensamento dos fiéis e simpatizantes. Um belo dia, homens e mulheres inteligentes, ficam reduzidos ao papaguear das diversas passagens bíblicas, sem mesmo perceberem o seu significado.

      São reatores em vez de pensadores.

      Grande abraço!

  2. Saudações!
    Amiga LUÍSA:
    Muito bem construída a sua Crônica.
    Sempre respeitei os dirigentes dessas grandes religiões porque os acho verdadeiros gênios. E o aperfeiçoamento do tema em tela deve ter se dado muito antes. Acho que primeiro, trabalharam incansavelmente no aprimoramento do meio propagandístico quando criaram o sino. Já pensou na época quando alguém inventou o sino? Pois é, uma simples badalada e centenas de futuros membros se dirigiam a uma igreja. Deve ter sido uma coisa revolucionária. Fascinante. Depois de muito refletirem subitamente surgiu a genial ideia de tomarem a confissão. Acho que foi ai que se deu partida para a criação e de terem o controle absoluto de todos os membros.
    Acho que foi ai que deram inicio a criação da primeira companhia ou empresa (igreja) globalizada do mundo – foi preciso muito séculos para a as empresas privadas aprenderem – e com o passar do tempo emprestaram e aperfeiçoaram a teoria do bem e do mal, foi quando nasceu a história do pecado venial, pecado original e pecado de todas as cores e para todas as qualimarcas de gosto, purgatórios etc. Quanto a diminuição da “penalidade” ficou fácil aplicá-la, aplicaram o fruto da confissão junto a maioria dos seguidores confessos. Eu só acho uma coisa minha amiga se Deus é a eterna fonte do amor e ama a seus filhos, esse mesmo Deus não pode ser vingativo e nem tão pouco injusto.
    Parabéns por mais um excelente Post!
    Abraços,
    LISON.

    • Luísa L. diz:

      Olá Lison! 🙂

      Ai meu amigo, eu ainda tenho que comer muitas papas, para perceber toda essa hierarquia dos pecados… 😉

      Adorei a tua narrativa desde a invenção do sino até à criação! 😀 😀

      Muito obrigada pelo teu excelente comentário!

  3. Fico um tanto na dúvida… É direito da criança ter uma religião… Então porque não ser a dos pais?… Agora, ao longo de sua vida deveríamos educa-la para escolher a religião que quisesse na vida adulta. Informa-la que é livre para mudar ou até não ter religião.

    Foi assim que aconteceu comigo, recebi a religião de meus pais e quando tive condições de fazer escolha fiquei independente de instituições.

    Bjs!

    • Luísa L. diz:

      Olá Nanda! Há quanto tempo… é muito bom ver-te aqui. 🙂

      Acho que é direito da criança poder escolher sem influências externas. A minha opinião é que as crianças deveriam ser educadas sem o recurso à orientação religiosa.

      Comigo também aconteceu o mesmo que contigo. Também sobrevivi. 😀

      Beijos!

  4. Sissym diz:

    Luiza, querida, eu achei muito bacana uma decisão de minha prima-irmã: não batizou os filhos até os 3 estarem maiores e que pudessem escolher tanto a religião quanto os padrinhos. Até a mais velha ser batizada, passaram-se uns 15 anos. Isso é otimo.

    Impor crenças e incluir pessoas nas vidas que não são as nossas, é terrorismo! Quantos padrinhos, mesmo na qualidade de familiares, desaparecem da face da Terra, ignorando os convites e os aceites!

    Beijos

    • Luísa L. diz:

      Olá Sissym! 🙂
      Eu penso que a religião é uma matéria muito complicada. Parece-me que as crianças não têm maturidade, para a compreensão de certos conceitos (nem têm que ter). Por isso, em minha opinião, elas deveriam ser educadas sem qualquer orientação religiosa, até terem capacidade para fazerem livremente as suas escolhas.
      Saudades! Um abraço apertado e beijinhos para ti e para a Laurinha. 🙂

  5. Renata diz:

    Gostaria de saber em qual passagem bíblica está escrito q Eva copulado com a serpente? Acredito que nem nos apocrífos há. Vc me faz rir. kkkkkk. Então o fruto (não especificando-se q tipo podendo ser de da “famosa” maçã a um abacate) é uma transa? Aiaiai heim…essa sua Eva é Zoofíla,kkkkkkkkk.

    • Luísa L. diz:

      Boa noite, Renata!
      Eu espero que “a copula com a serpente” não esteja em nenhuma passagem bíblica! 😀 😀
      Isso foi uma “revelação divina” a William Marrion Branham, em meados do séc. XX. Podes ver no link que apresento no texto. Se calhar há mais revelações deste género… 🙂
      Muito obrigada pelo comentário e ainda bem que te divertiste! 😉

  6. Manoel diz:

    Oi Luisa!
    Eu penso que os pais devem passar para os filhos todos os valores que eles consideram importantes e que acreditam ser valiosos para o crescimento dos filhos, e isso inclui os valores religiosos, depois se quiserem, troquem os valores, quais quer que forem. A liberdade de escolha eles sempre terão, e poderão decidir se ficam com o que lhes foi ensinado ou se mudam.
    Obs 1- Eu não pratico nenhuma religião!
    2- Você não disse se depois de ser batizada a febre sumiu ou continuou.
    Abraços,
    Manoel

    • Luísa L. diz:

      Olá Manuel, boa tarde meu amigo!

      Na minha opinião, os valores nada têm a ver com a religião. Por isso, não vejo razão, para que os pais iniciem os seus filhos em rituais complicados e conceitos pouco claros. 🙂

      😀 😀
      Bem, eu estou aqui não é? Mas não foi milagre, certamente. O médico sempre pensou que eu era rija e que aguentaria. Para além disso, eu era uma criança tão endiabrada, que jamais alguém iria relacionar com um milagre divino! 😀 😀

      Grande abraço e saudades!

  7. Quando li: “Eu não escolhi Deus”. – Pensei: “Mas Deus lhe escolheu, Luisa”.
    Lógico que a sua frase é só para causar impacto. Porque no decorrer da narrativa o que me parece ficar em questão é a imposição de religião para uma criança e o pecado original. Detalhes insignificantes, já que Deus concedeu a todos o Livre Arbítrio.
    A meu ver, os pais devem ensinar tudo o que aprenderam… até mesmo a brincadeira de Papai Noel é válida, porque, depois de adulto, cada um vai traçar seu caminho de fé… como nós estamos fazendo agora.
    Abraços.

    • Luísa,
      Concordo plenamente com você !
      Quanto a religião, a criança não possui maturidade para fazer opção e é sem dúvida errado os pais fazerem opção por ela.
      Isso, para mim, é, de certa forma, um tipo de lavagem cerebral, pois os pais induzem a criança a seguir os seus caminhos porque que é o que ELES acham ser o correto.
      E a criança, frágil como é, assim aceita.
      Na verdade, alguém já disse: não existe criança católica, ou protestante, ou o que for. Elas são o que os pais querem que elas sejam, nem sabendo o que isso de fato significa.
      Sem delongar, hoje eu creio que uma das matérias muito importantes que deveria ser ensinada nas escolas seria ÉTICA e não religião. E o mesmo deveriam os pais ensinarem aos filhos.
      Parece que temos um monte de crianças “religiosas” e poucas éticas.

Sirva-se de frutos, prove o hidromel e diga de sua justiça!

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s