Sobre Deuses e Unicórnios

Andei a escrever sobre o Unicórnio Cor-de-Rosa Invisível, naturalmente, com simplicidade e com o coração envolto numas esvoaçantes asas de fada, adereço infantil, venerado pela minha filha mais nova quando tinha quatro anos, que estive a separar para dar, visto a rapariga, cinco anos volvidos, ter voltado a sua fé de vir a ser heroína, para o estrelato de Hollywood. Agora anda com um microfone na mão e os apetrechos de Karaoke atrás, facto que, honestamente, me dá saudade das vaporosas asinhas. Esta saudade simplória, própria das mães, vá-se lá saber porquê, atiçou-me a vontade de falar sobre a fé, tendo sido o Unicórnio Cor-de-Rosa Invisível o Ser que aflorou a minha mente, talvez pela cor das asinhas de fada. Também poderia ter escrito sobre o Cristianismo e Deus, sobre o Pastaferismo e o venerável Monstro do Esparguete Voador, sobre Alá e o Islamismo, sobre a Unidade Cósmica ou sobre qualquer outra divindade, de nome pomposo e de filosofia simples. Sim, porque a filosofia das divindades é simples, por mais retorcida e imaginativa que seja a mente dos deístas e teístas, quando resolvem, em elaboradas teses, transformar a ignorância, própria da humanidade que transportam em si, nas mais sofisticadas filosofias, labirintos de sabedoria acumulada, onde qualquer ser desavisado se perde, ou, na pior das hipóteses, fica irremediavelmente preso.

Toda esta conversa para nada, dirão vocês, mas eu responderei que não, que esta introdução é apenas para responder a um amigo deísta, que comentou o dito artigo. Começa ele, na sua boa fé de crente numa divindade diferente do Unicórnio Cor-de-Rosa Invisível, a pôr em causa a divindade por mim escolhida. Resolvi então fazer um artigo, em vez de lhe responder nos comentários, porque sou uma mulher prática e racional e assim, usando o escasso tempo que reservo às divagações, mato dois coelhos com uma cajadada, que é como quem diz, respondo ao meu amigo e tapo o buraco com um artigo, que não teria tempo para fazer, se lhe respondesse, como manda a tradição e boa educação, mas eu não sou tradicional e sei que ele me perdoa o deslize.

Dizes tu, Acho engraçado quando se compara a ideia de um criador da existência que chamamos de Deus com unicórnios cor-se-rosa ou com bules voadores na órbita terrestre…rsss e ainda, (…)é claro que para quem acha que um unicórnio cor-de-rosa tem o mesmo peso filosófico do “motor primordial” de Aristóteles ou de todas as construções filosóficas que foram pensadas e criadas ao longo da história da filosofia e da teologia, dá na mesma! E eu pergunto, se um deus é um deus, ou não é um deus e porque pensarás tu que o meu Unicórnio Cor-de-Rosa Invisível é menos valioso que o teu Deus, pois se tu quiseres, poderemos discutir sobre o Monstro do Esparguete Voador, de quem também sou admiradora, uma vez que, a esta divindade voadora e com sabor a bolonhesa, estão associados alguns dogmas e filosofias, que poderão brilhar, sem ofuscar o brilhantismo do Motor Primordial Aristotélico.

Pergunto eu o que será uma construção filosófica, e perguntarão, talvez, vocês que me leem, pois em boa verdade qualquer questão é filosofia, nem que seja uma questão sobre a batata, e tem que ser baseada na lógica, que pode ser a Aristotélica ou não. Mas, para seguir o teu raciocínio, vamos basear-nos então, na lógica aristotélica para questões metafísicas, e eu poderei afirmar que o Unicórnio Cor-de-Rosa Invisível é tão bom como qualquer Deus, senão vejamos: quanto à Matéria (base ou 4º nível), ninguém sabe de que matéria Deus é feito, nem o Grande Arquiteto, nem O Motor Primordial, tal como ninguém sabe de que matéria o Unicórnio Cor-de-rosa Invisível é feito, ou sequer se são feitos de alguma matéria, pois nunca ninguém viu uns ou outro; a Forma (3º nível), não se sabe se Deus, ou o Unicórnio Cor-de-Rosa Invisível têm forma, pois nunca ninguém os viu; já na Eficiência (2º nível), eu vou supor, isto quando se trata de deuses, só se pode trabalhar com especulações, pois como viram, no 4º e 3º níveis, nem sei muito bem do que estou a falar, que, o que deu origem à existência de Deus foi a ignorância de nós mesmos e os respetivos medos e angústias, por ela gerados, sendo a morte, o exemplo por excelência. Deste modo, o que deu origem ao Unicórnio Cor-de-Rosa Invisível, foi a tentativa de esclarecer os distraídos, que qualquer ser humano, com dois dedos de testa, pode criar um deus e uma religião, explorando as limitações e ansiedades dos seres humanos. Cabe-me aqui opinar, que os seres humanos são seres da natureza, sujeitos às suas leis, sem apelo nem agravo, tal e qual como qualquer vaca, ou pardal, uma bela flor, ou uma frondosa árvore, embora nós gostemos de pensar que somos seres especiais, apenas porque a nossa inteligência é um pouco maior do que a dos golfinhos. Visto assim, poderemos afirmar, que ambos são igualmente eficientes no seu objetivo, pois um é eficiente a confortar espíritos medrosos e o outro a esclarecer, que não há necessidade de ter medo da vida, pois toda a gente, sem exceção, irá, a seu tempo, alimentar o ventre da grande mãe. Os aficionados da alma, de almas do outro mundo, lobisomens, sereias, centauros e outros mitos estrambólicos, também podem usar este elaborado quebra cabeças aristotélico e demonstrar a existência de tais criaturas. Chegamos então àquilo que o meu amigo chamou de Motor Primordial, que é como quem diz, o 1º nível das substâncias supra sensíveis, visto que não as podemos ver, nem analisar com os sentidos, como ficou provado no 4º e 3º níveis, e a grande pergunta aqui seria, para quê Deus ou o Unicórnio Cor-de-Rosa Invisível, e também aqui, cada um pode ser tão verdadeiro como o outro, pois Deus mantém a ordem cósmica e de toda a natureza, e, à boa maneira humana, tem os seus preferidos, que somos exatamete nós, seres que ele gosta de manter obedientes e tementes. O para quê do Unicórnio Cor-de-Rosa Invisível, prende-se com a necessidade de gritar, que aquilo ali atrás não tem qualquer validade lógica, pois, como é que alguém pode saber a cor dum Unicórnio que é Invisível.

Mas, como tu sabes, meu amigo, e os leitores também, o velho Aristóteles, disse e demonstrou as suas questões sobre Deus, à luz dos conhecimentos que possuía na época, e já lá vão quase 2300 anos, nem outra coisa era de esperar, pois ele não adivinhava o futuro, e também, à luz desses conhecimentos, disse muitas asneiras, valha-me deus, basta analisarmos algumas das suas afirmações, com a lamparina dos nossos conhecimentos atuais. Isto é para responder à pergunta que o meu amigo faz, O que a deusa ciência nos diz? E acrescentarei, que a Ciência nos vai dizendo o que pode, sempre mais um bocadinho todos os dias, umas vezes progredindo, outras vezes regredindo, para voltar a avançar novamente, mas nunca fazendo afirmações definitivas, sobre o que não pode provar, pois certas teorias deixam de ser válidas, quando surgem outras melhores, e a ciência não se envergonha dos seus erros, pois com eles pula e avança. E só para rematar, a ciência não é metafísica, não parte de pressupostos sem validade científica, por isso, a questão do sentido da existência é meramente filosófica, mutável consoante a visão de quem analisa, daí que o Unicórnio Cor-de-Rosa Invisível, seja tão válido quanto Deus, Shiva, Yavé, Alá, ou outra deidade qualquer.

E olha só que vaidade… E essa consciência então, que emerge dos átomos humanos, aqueles mesmos átomos que povoam as estrelas, é capaz de dar sentido a tudo o que vê. Mas pobre dela, chora quando lhe dizem que essa busca por sentido, finalidade, design, é tudo resultado de uma evolução burra e aleatória, por isso não lhe deve dar muito valor., ora, meu amigo, as baratas vivem há aproximadamente 400 milhões de anos, quase imutáveis, são resistentes, mas, até ao momento, parecem não dever nada à inteligência, por sua vez, os primeiros hominídeos, até à data conhecidos, sugiram há cerca de 7 milhões de anos. Se considerarmos que, até chegarem à fase de Homo Sapiens, todas as espécies Homo, anteriores, se extinguiram, não faltará muito para que a nossa dê o berro, para dar origem a outra bem mais inteligente, espero eu, bem mais natural, livre da ideia de espécie escolhida, por uma hipotética Inteligência Suprema, que afinal não se tem revelado assim tão inteligente, pois cria inteligência superior em seres débeis, atreitos a doenças, nada resistentes às radiações (sejam ela naturais ou produzidas por nós), brigões, egoístas, imperialistas, cruéis, assassinos e pior, com uma vocação especial para desdenhar a sua origem: a natureza. Quer-me parecer que a Inteligência Suprema, ou Motor Primordial, Deus, ou como lhe queiram chamar, que tudo mantêm na devida ordem, tem um carinho secreto pelas baratas, que mantém quase imutáveis há tanto tempo, e está a preparar-se, para fazer com os homens, o que fez com os dinossauros, dando às valorosas baratas, que se têm revelado poderosas, a inteligência que nos falta.

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Sobre Luísa L.

Portuguesa, alentejana, apaixonada pelas artes e letras em todas as suas manifestações.
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7 respostas a Sobre Deuses e Unicórnios

  1. Nossa!!! Quase dei um nó no cérebro agora rs, acho que cada um acredita naquilo que quiser, e me respondam quem é o dono da verdade? quem esta certo? Luiza continue com o seu Unicórnio Cor-de-Rosa Invisível, e o seu Monstro do Esparguete Voador, a mente humana é livre para criar a acreditar no que quizer, pobres daqueles que perderam a imaginação, e estão afogados, na obscuridade de seus conhecimentos, incapazes de entender a pureza e simplicidade daqueles que ainda conseguem sonhar.

    abraços

  2. Luísa, o texto é muito bom, mas eu gostaria de te perguntar se tu conheces os sites: http://www.ceticismo.net e o site http://www.livrespensadores.org, recomendo principalmente o primeiro, abraços irreligiosos!!!Sayonará!!!

    • Luísa L. diz:

      Fernando, bom dia! Não conhecia nenhum dos dois sites, mas já estou a seguir pois, pareceram-me muito interessantes. Obrigada por partilhares! Abraços.

  3. Beth Muniz diz:

    Luisa,
    Se eu continuar a ler os seus textos vou ter que fazer uma coisa que nunca fiz: Terapia! rsrsrs
    Será que vou ter que desconstruir paradigmas, e começar a dizer “Ai meu Unicórnio”, ao invés de “Ai meu Deus!?” Pode ser os dois então. Já que nunca os vi, mas acredito que existam.
    Brincadeiras a parte, gostei demais do último parágrafo.
    Adoro os seus texto. Se demoro a comentar, as vezes, é porque leio e releio antes.
    Compartilhado.
    Beijão querida.

    • Luísa L. diz:

      Beth, estou farta de rir para dentro, pois estou com uma tremenda dor no pescoço, e, se rir para fora, dói à brava!
      Coisas do divino Unicórnio Cor-de-Rosa Invisível, ou, mais provavelmente da péssimo postura que adoto a trabalhar. rsrsrsrs

      Beijos e obrigada pela participação!

  4. Eduardo Medeiros diz:

    Luísa, antes de tudo, quero dizer que me sinto honrado que um comentário meu tenha resultado em uma postagem brilhante como esta. Aliás, admiro demais tua capacidade de articulação e conhecimento.

    Não vou querer fazer um comentário muito grande já que você está com o tempo contado, por isso, vou tentar ser o menos prolixo possível. Antes de tudo, quero lhe dizer que não sou deísta. Aliás, entre um deísta e um teísta, eu preferiria ser um teísta que é uma ideia bem mais interessante ao meu ver. Afinal de contas, prá que serve um deus que “que foi embora”?

    Na verdade, eu estou mais próximo do agnosticismo, apesar de não ser agnóstico. É, sou complicado mesmo. Posso até ser chamado de ateu, já que também não acredito nem em Zeus, nem em Osíris, nem em Javé, nem no seu Mostro do Espaquete Voador(aliás, gostaria muito de saber qual é essa filosofia ligada a ele…rss).

    Mas eu faço uma diferenciação entre os mitos religiosos e o sentimento religioso em si. Este sentimento é que me atrai, pois ele é o reflexo de um busca que todos nós temos, sejamos religiosos ou não. Até mesmo um ateu possui esse sentimento, ainda que ele não esteja direcionado à ritos e dogmas religiosos. O sentimento religioso é o transbordamento da alma humana quando se percebe fragmentado e busca de novo se religar com o Todo. Ou seja, quando busca voltar ao Éden primordial, ao ventre da sua mãe, quando ele era um.

    O sentimento religioso de unidade nasce do desamparo. O homem religioso procura voltar-se para Deus como nós inconscientemente, procuramos voltar de novo a ser um só com a nossa progenitora. Não vou entrar aqui no pensamento de Freud sobre a importância da figura do pai na figura do Pai celestial judaico-cristão(que você deve conhecer bem). Mas é no pensamento do discípulo de Freud, Jung, que está em minha opinião, a melhor explicação para o sentimento religioso humano. A verdade é que “Deus” mora em nossa psique, faz parte do nosso inconsciente. Ponha em “Deus” o seu unicórnio e de fato, não fará diferença se é que você buscaria no seu unicórnio a ponte para a sua “totalização existencial.”

    A questão central não é refutar a ideia de Deus como um ser pessoal e criador, invisível e improvável, isso é fácil fazer. Veja o que você escreveu:

    “o que deu origem à existência de Deus foi a ignorância de nós mesmos e os respetivos medos e angústias, por ela gerados, sendo a morte, o exemplo por excelência. Deste modo, o que deu origem ao Unicórnio Cor-de-Rosa Invisível, foi a tentativa de esclarecer os distraídos, que qualquer ser humano, com dois dedos de testa, pode criar um deus e uma religião, explorando as limitações e ansiedades dos seres humanos.”

    E eu te pergunto: o homem tecnológico do século 21 conseguiu superar seus medos, angústias e já se conhece por completo? Ora, nem ainda sabemos de forma absoluta como a vida surgiu e muito menos a vida inteligente e consciente. Isso, em quem pensa, gera angústia, mas em quem não pensa, mas sente, gera ritos religiosos e deuses. Mas no fundo, a angústia de um é a angústia do outro.

    Bem, como já está ficando longo o meu comentário, amiga, vou parar por aqui. Não faltará oportunidade para aprofundarmos mais essa questão. E que o Unicórnio cor-de-rosa te abençoe…heeeeee

    beijos

  5. Valéria diz:

    Não sei quanto as baratas, nem de onde veio a força que estas adquiriram junto ao tempo. Sei de mim. E de mim, sei que há mais coisas entre o céu e o chão que pisamos, e o fundo do mar que não atingimos. É que nós temos o habito de rotular as coisas, e coloca-las sob o nosso prisma. Talvez seja por isto, só por isto, que não não temos a visão necessária para avaliar determinadas coisas. É como uma questão de óculos, se ele é rosa, a gente vê o mundo em tons rosados, se o grau tá baixo, fica tudo embaralhado. Se o foco ta desregulado, fica tudo desfocado. E assim, cada qual com seu par de olhos, vê o mundo. Mas mundo é mundo, muito mais vasto do que nosso mero pensamento.

    Um abração pra vc!

Sirva-se de frutos, prove o hidromel e diga de sua justiça!

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