Tentando Compreender o Conceito de Nada

No nosso dia a dia, para comunicar, usamos as palavras, que mais não são do que sons ilustrativos de coisas ou conceitos. Quando queremos escrever, transformamos esses sons em códigos, que, por sua vez, são compreendidos por quem os descodifica. Há, no entanto, palavras que usamos muitas vezes sem critério, não porque não saibamos o seu significado, mas por simples desleixo de linguagem. Nada, é uma dessas palavras. É vulgar, no decurso duma conversa, proferirmos ou ouvimos, “não tenho nada”, “esse objeto não vale nada” ou “aquela teoria científica/filosófica não prova nada”, mas se analisarmos a frase, mesmo não sabendo o contexto em que foi proferida, verificamos que nenhuma delas é verdadeira. Temos pelo menos a voz para emitir os sons da frase, o objeto tem o valor que tem (seja muito ou pouco) e as teorias científicas/filosóficas provam sempre alguma coisa, nem que seja a negação do que pretendem provar.

Do ponto de vista da Matemática, o conceito de nada equivale ao de “conjunto vazio = Ø”, que se define como um conjunto que não possui elementos, mas, segundo o Axioma da Especificação ou da Separação, Ø é um elemento do conjunto dos subconjuntos de um conjunto. Vejamos com um exemplo: dados os conjuntos y e z, sabendo que Ø (x,y,z) = (x Є y), então existe um conjunto w, tal que x Є w <=> x Є z Λ Ø. Deste modo, com a garantia da interceção dos conjuntos, o nada seria um dos elementos do tudo, ou do Universo. No entanto, este Axioma não encontra na Física uma base sólida para demonstração.

Para uma melhor compreensão do nada, em Física, há que ter em conta três conceitos: o vácuo, o vazio e o nada. O vácuo é entendido como um espaço onde não existe matéria, nem sólida, nem líquida, nem gasosa, nem plasma, nem mesmo a matéria escura. Mas, nesse espaço podem existir campos: campo elétrico, campo magnético, campo gravítico, luz, ondas de rádio, raios X, ou outros tipos de radiação. O vácuo possui, então, energia e as suas flutuações quânticas podem dar origem à produção de pares de partícula e antipartícula, não é uma abstração pois lá pode existir energia.

O vazio pode ser definido como um espaço onde não existe matéria, nem campos eletromagnéticos, nem radiação. Mas no vazio há ainda o espaço, isto é, a capacidade de caber algo. Não há o conhecimento de que no Universo exista o vazio, pois o que sabemos é que todo o espaço, mesmo que não contenha matéria, é preenchido por campos eletromagnéticos e pela radiação.

O conceito de nada refere-se à inexistência de qualquer coisa. No nada não existe nem o conceito de espaço vazio, onde eventualmente pudesse caber algo. O conceito de nada inclui ainda a inexistência de qualquer lei física aplicável a algo existente, sejam a conservação da energia, o tempo ou o espaço, enquanto lugar com possibilidade de localização. Então o nada seria um não-lugar, não-tempo, não-energia, isto é, coisa alguma pode estar no nada.

A Cosmologia Física não faz referência ao que poderia existir antes do Big Bang. Uma das possibilidades é a de que, antes, não houvesse coisa alguma, nem vácuo, nem energia, nem leis físicas, nem espaço vazio para se ter alguma coisa e nem mesmo decurso de tempo. Seria, pois, o nada.

Na Filosofia, o nada é tratado das mais diversas formas: Kant dizia que o nada é um pseudoproblema, Bergson, que o nada não existe, mas é concebido por operações mentais, para Sartre, o nada tem existência real em oposição ao ser; deste modo, também a Filosofia não adianta um padrão ou uma resposta consensual para a existência do nada.

Eu gosto de perguntar-me, a mente humana funciona através de padrões, porque terá concebido o padrão nada para a inexistência de?

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Sobre Luísa L.

Portuguesa, alentejana, apaixonada pelas artes e letras em todas as suas manifestações.
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6 respostas a Tentando Compreender o Conceito de Nada

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  2. Salvador Insacro diz:

    A filosofia de Espinosa, o Geômetra, é bem informativa acerca do Nada.

    Por que existe alguma coisa ao invés do nada?

    A pergunta certa não é “por que”, mas “como”, como é que podemos afirmar que existe alguma coisa ao invés do nada? Até porque a pergunta “Por que existe alguma coisa” é na verdade a procura por uma causa final, o que não pode ser respondida como uma pergunta lógica (é afinal um argumento de fé), portanto não representa uma pergunta conceitual, no caso, de existência e inexistência.

    A mera possibilidade de “existir um nada” é um paradoxo, pois nenhum lugar no espaço foge das leis da Natureza, é uma questão de se ver capaz de entender o mundo pelo que Spinoza (1632 – 1677, no qual baseio grande parte deste pensamento) chama de “Amor intelectual de Deus”—

    O amor intelectual de Deus é na verdade uma espécie de Intelecto Universal da Natureza, é portanto, a soma de todos os conhecimentos. O uso da palavra “Deus” por Espinosa é mal interpretado como deísmo, o conhecimento aprofundado em sua filosofia, porém ainda mal interpretado, irá considerá-lo panteísta. Porém um estudo histórico, contextual e conceitual de sua filosofia, aprofundado ao ponto que chegou uma de nossas maiores mentes da filosofia brasileira ultimamente, Marilena Chauí, mostra que Espinosa era tão deísta quanto eu.

    Sim, sou plenamente ateu, e também era Spinoza, eu explico:

    Na filosofia de Espinosa existem três modos do conhecimento:

    – Percepção sem as causas

    Como por exemplo saber que o sol existe, sem realmente saber que ele é maior do que uma bolinha no céu e que é o responsável pela vida no planeta.

    – A Razão

    No caso, a razão humana, a interpretação da ciência e dos meios lógicos do homem sobre a existência.

    -O Amor intelectual de Deus

    Desta forma, o conceito da palavra “Deus” de Spinoza tem de ser explicado, antes de mais nada. Uma das frases mais importantes que representam sua filosofia é “Deus sive Natura”, do Latim, “Deus, ou seja, a Natureza”. “Deus” para Spinoza, é um conceito filosófico que, enquanto muito simples por definição, é extremamente complexo como conteúdo, o que torna difícil sua real compreensão até para mentes bem pensantes, Deus é a Natureza, ou seja, o conjunto infinito das causas finitas “o conjunto de todas as coisas”, sim, Deus é substância. Porém, entende-se errado o conceito espinozano de “Substância” confundindo então sua filosofia com o Panteísmo, o que é equivocado, pois enquanto o Panteísmo afirma uma existência espiritual (não confundir com o conceito de “espirito” para Espinosa) de Universo, Spinoza o tem como a inegável existência perante as leis da Natureza, mostrando em teoria que, em condições iguais, o mesmo planeta pode existir em qualquer ponto do espaço.

    Então, o amor intelectual de Deus é na realidade a compreensão da Natureza, e a Natureza compreendida. É conseguir entender não a todas as coisas, mas pelo menos como é que elas se encaixam no Universo, e que todas as coisas se encaixam na Natureza. O amor intelectual de Deus é de certa forma, com um termo que, por ser puramente humano, é um tanto inapropriado, a “lógica” da natureza de todas as coisas.

    —Voltando então, agora que sabemos o que é o amor intelectual de Deus, à resposta da pergunta. É possível perceber, à partir de tudo isto, que a presença da Natureza é infinita, a presença de uma “lógica” de funcionamento universal. Meus caros, a Matemática do universo.

    Leis da física são leis humanas, descobertas pelo ser humano e passíveis de mutação de acordo com novas conclusões, é possível ver o quão perto disso chegamos quando a pouco tempo foi ameaçada de extinção uma das teorias de Einstein, o próprio, na qual ele afirma não ser possível que qualquer partícula ultrapasse a velocidade da luz. (http://www.inovacaotecnologica.com.br/noticias/noticia.php?artigo=neutrinos-superam-novamente-velocidade-luz&id=020175111118).
    Mais tarde descoberta que a luz ultrapassa a velocidade pressuposta da luz, veja só:
    (http://www.inovacaotecnologica.com.br/noticias/noticia.php?artigo=luz-supera-velocidade-luz&id=010130110818)

    De qualquer forma, a existência é o que permite a presença das leis da natureza, o “nada” simplesmente “Não há”, não existe, pois mesmo o vácuo absoluto de matéria é contado como existência, nos conceitos de Natureza, por estar também submetido às mesmas leis de qualquer outro lugar, por ter a presença da tal “substância” de Spinoza, tanto no mais distante e deserto ponto do universo, quanto no planeta Terra.

    • Odraude diz:

      Facilmente poderei provar que “nada” é fisicamente impossivel de existir, ora vejamos, se pegar numa palhilha normal, daquelas que usamos para beber um sumo ou outra coisa qualquer e taparmos os dois lados poderemos dizer que não fica lá nada dentro? Não, não podemos afirmar pois lá dentro está ar, ou particulas ou poderemos chamar o que quizermos mas está lá algo, mas se taparmos apenas de um dos lados e sugarmos com a boca do outro o que está lá dentro seja o que for é sugado e a palhilha é comprimida logo prova que é impossivel não existir nada naquele espaço (dentro da palhilha), e isto aplica-se a tudo o resto.
      Podem comprovar ao fazer a experiência.

  3. Beth Muniz diz:

    Eu!
    Mas eu sou o amargo da língua,
    A mãe, o pai e o avô;
    O filho que ainda não veio;
    O início, o fim e o meio.
    O início, o fim e o meio.
    Eu sou o início,
    O fim e o meio.
    Eu sou o início
    O fim e o meio.
    (Raul Seixas)

    Oi Luisa,
    Interessante a sua pergunta final.
    O Rual costumava afirmar, por analogia, que somos o início, o fim e o meio. Explicitamente, nunca o “nada”.
    Mas, quando se refere “ao filho que ainda não veio”, estaria o cantor referindo-se ao nada?!
    Porque que motivo usamos tanto este conceito nada?
    Creio que a origem do problema está na “nossa” formação cristã-judaíca-ocidental, que nos empregnou de medos “divinos” como uma forma de se buscar a salvação da alma. Pode ser esta origem do conceito de Bergson, visto que o processo é meramente mental.
    Eu prefiro mesclar as posições de Kant com Sartre (nada é um pseudoproblema) com Sartre (o nada tem existência real em oposição ao ser).
    Ou seja: Se “eu” ; deste modo, se eu não tenho um (pseudo) problema, não tenha nada.
    E se não tenho nada, eu não sou nada! Pelo menos na esfera terrena.
    Sei lá…
    Entendeu tudo?
    Nem eu! rsrsrs
    Beijão e bom final de semana.
    Compartilhado.

  4. Já me fiz uma pergunta semelhante a essa. Quando cheguei na parte dos nãos.
    Tem certas coisas, penso eu, que nós não conseguimos explicar.

  5. Valéria diz:

    Nossa… muitas indagações para minha cabecinha pensante… mas amos a frase que diz: “O que move o mundo não são as respostas e sim as perguntas!”
    mas… juro que vou pensar nisso!
    beijo no coração

Sirva-se de frutos, prove o hidromel e diga de sua justiça!

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